Ligação Inoportuna


Meus dedos procuram nervosamente
os números do teu telefone...

Ligo e escuto, repetidamente, o tilintar da campainha...

Religo, vagarosamente, o teu número
e, nitidamente, escuto o teu verdadeiro - alô - melodioso
e o som quase imperceptível do aparelho
sendo propositadamente desligado....

Insisto, nervosamente, várias vezes,
na esperança de que um milagre aconteça
e voltes a atender o meu chamado...

Minutos depois, que me parecem eternos,
quando estou prestes a desistir,
escuto o teu - alô - pausado e musical,
que, imaginariamente,
me faz lembrar todas as vozes queridas
fundidas numa só voz...

Mas o - alô - vem seguido de palavras frias,
dirigidas a quem quer que discasse,
voluntária, ou involuntariamente,
o teu número pomposo, bonito
e de algarismos sonoros e repetidos

Eu queria ouvir, como da primeira vez,
a tua voz viva, amiga,
emocionante e tranqüilizadora,
capaz de amainar a solidão desnecessária,
que nenhum poeta deveria sentir...

Foi, então, que, conscientemente,
pude entender que, mesmo sem visão,
sem qualquer noção de sentimento,
a Secretária Eletrônica,
por tantos mal falada e indesejada,
pode nos despertar,
nas horas oportunas, ou inoportunas,
para a mais amena
ou mais dura realidade da vida!...

 

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